Tempo, Imagem e Trajetórias Ininterruptas
A pesquisa teve início na experiência artística “Costura da Memória”, que expressa a complexidade das temporalidades envolvidas na constituição imagética. O projeto, que trabalha a recomposição fragmentada e imperfeita das vivências, levanta questões fundamentais sobre a presença e transformação do tempo na percepção das imagens.
Desse ponto prático, emergiu o impulso teórico-metodológico de aprofundar a relação entre tempo, imagem e memória enquanto componentes indissociáveis das trajetórias individuais e coletivas. A investigação revelou a impossibilidade de conceber memória como um repositório estático, destacando-a como processo dinâmico e contínuo, elemento central de uma abordagem ampliada sobre produção artística contemporânea.
Ao refletir sobre a multitemporalidade inscrita em múltiplos suportes — fotografias, esculturas, vídeos e instalações — o projeto evidencia como sobreposições, deslocamentos, falhas e fragmentações dão corpo à pluralidade temporal vivida, ressoando com experiências não lineares do tempo.
Ancorado em pensadores como Bergson, a pesquisa aprofunda a distinção entre o tempo homogêneo, cronológico e mensurável, e o tempo-da-duração, subjetivo, fluido e contínuo. Nesse horizonte, a imagem surge como espaço privilegiado para manifestar esse tempo “interno”, onde temporalidades distintas coexistem e se transformam.
A reflexão se enriquece com a visão de Barthes sobre o punctum — o detalhe disruptivo que suspende o tempo linear e evoca afeto e recordação — e com a análise de Georges Didi-Huberman sobre o tensionamento das temporalidades dentro da imagem, recusando narrativas unívocas. Warburg contribui com a noção de imagens como portadoras de afetos e vitalidade atravessando séculos.
Complementarmente, a perspectiva de Halbwachs reforça a memória como fenômeno coletivo e simbolicamente construído, continuamente atualizado em múltiplas camadas de história e vivência. Merleau-Ponty contribui ao iluminar a inseparabilidade entre tempo vivido e corporeidade, fortalecendo a inter-relação entre memória, imagem e temporalidade.
Essa convergência de abordagens práticas e teóricas dá origem a um percurso investigativo que convida a análise crítica e sensível do tempo na contemporaneidade, ampliando o entendimento da experiência artística como espaço dinâmico de temporalidades múltiplas e entrelaçadas.





