A obra representa um desdobramento tridimensional da investigação iniciada em “Jogo”, aprofundando o estudo das linhas do tempo e suas ramificações por meio da linguagem escultórica. Utilizando blocos de madeira natural empilhados para evocar a silhueta das araucárias — árvores ancestrais do sul da América do Sul — a peça ganha densidade material e ressonância telúrica, pois seus veios e texturas revelam os ciclos de crescimento da madeira, imprimindo à obra sua temporalidade original. A estrutura, simultaneamente fragmentada e coesa, traduz um tempo descontínuo, porém acumulativo, onde cada adição narra uma história de continuidade e transformação. Enquanto em “Jogo” as extensões lineares podiam ser manipuladas pelo participante, aqui a própria morfologia da madeira sugere linhas e rotas temporais que se entrelaçam organicamente, formando espirais que expandem a concepção tradicional do tempo linear. Essas espirais simbolizam a experiência vital, permeada por memória, aprendizado e transformação constante, e ilustram múltiplas temporalidades que colidem e se reorientam, refletindo identidades plurais em mutação contínua. Assim, a escultura instaurando um campo dinâmico de temporalidades coexistentes, propondo uma ruptura com a linearidade temporal e afirmando o tempo como um espaço complexo de forças, fluxos e encontros tão multifacetado quanto a natureza que inspira sua forma.