A concepção do muro como uma “pele” se aprofunda ao focalizar as marcas físicas e visíveis que o tempo inscreve nessa superfície orgânica, cuja pigmentação avermelhada remete à tonalidade da carne humana, evocando uma ressonância profunda com a vitalidade e o incessante fluxo temporal. A superfície transcende seu papel estrutural para configurar-se como análogo material da experiência vivida, servindo de receptáculo para memórias, marcas e transformações acumuladas ao longo do tempo. A aplicação de novas camadas de tinta, frequentemente utilizada como intervenção estética, não oculta essas cicatrizes, mas as destaca, intensificando sua expressividade e revelando a textura subjacente por meio de uma membrana delicada, que atua como palimpsesto visual. As fissuras e descolorações aparentes, que lembram rugas de uma pele envelhecida, simbolizam a saturação temporal da matéria e funcionam como testemunhos da passagem do tempo, gravados de maneira indelevelmente na epiderme do muro, contando uma história silenciosa acessível ao toque e à visão. A obra resulta em uma série de impressões dessas cicatrizes, unidas de forma simbólica por costuras que buscam fechar as feridas do muro, ressignificando simultaneamente fragilidade e resistência num gesto poético e sensível, celebrando a história viva gravada na matéria.





